ATÉ A MÍDIA CONSERVADORA JÁ ANTEVÊ BOLSONARO COMO DITADOR



A imprensa conservadora, pautada por um
antipetismo feroz, começa a dar sinais de que sua adesão incondicional e
entusiasmada a Jair Bolsonaro está refluindo; foram esses os sinais claros que
a Folha de S.Paulo e alguns dos veículos do grupo Globo emitiram nos últimos
dias; dentre os jornalistas, ao pequeno grupo de profissionais progressistas
que subsistem na imprensa conservadora tem se unido outros, de direita, que
rejeitam o neofascismo de Bolsonaro.
247 – A imprensa
conservadora, pautada por um antipetismo feroz, começa a dar sinais de que sua
adesão incondicional e entusiasmada a Jair Bolsonaro está refluindo. A lua de
mel de ao menos parte da imprensa da direita com o candidato de ultradireita
parece estar acabando. Foram esses os sinais claros que a Folha de S.Paulo e
alguns dos veículos do grupo Globo emitiram nos últimos dias. O mais expressivo
deles foi o editorial desta quarta-feira (24)do Valor Econômico, da família
Marinho, sob o título: “Os Bolsonaro atacam a imprensa e a
democracia” (aqui)
“Bolsonaro
tem pouco apreço pela democracia, como demonstrou em seguidos discursos
públicos a favor da ditadura e da tortura”, indica o editorial, que
prossegue em tom crítico: “As instituições democráticas, construídas após
21 anos dessa ditadura, poderão ser tensionadas se Bolsonaro for eleito e
governar com o mesmo espírito com que disputou as eleições. Atitudes de
campanha são prenúncios, que já poderiam ser afastados por apelos à moderação e
ao bom senso, sem os quais a dura tarefa de recolocar nos eixos a economia,
entre tantas outras questões, não será realizada”.

O tom é sempre
de “uma no cravo e outra na ferradura”, pois o distanciamento de
Bolsonaro não significa um arrefecimento no antipetismo visceral das mídias conservadoras,
representativas das elites. No mesmo texto, o jornal dos Marinho não deixa de
manifestar o apoio ao golpe de Estado contra Dilma e derramar seu ódio ao
partido de Lula: “A corrupção e o desastre petista na economia
custaram-lhe [ao PT] o impeachment e, ao que tudo indica, esta eleição. Como
indicam as pesquisas, o povo tende a dar a Bolsonaro a incumbência de consertar
a casa da mesma forma com que ela quase foi desarrumada – dentro das regras e
métodos da democracia”.
Este mesmo
movimento é feito pelos Frias e sua Folha de S.Paulo. Ao mesmo em que se
antagonizam com Bolsonaro por conta das ameaças dos seus seguidores, a ponto de
pedir proteção da Polícia Federal a três jornalistas e ao diretor do Datafolha,
o jornal, ao publicar matéria sobre o assunto nesta terça, sob o título
“Folha pede que Polícia Federal investigue ameaças a profissionais”,
não menciona que as ameaças partem de bolsonaristas até o quinto parágrafo do
texto. Ao mesmo tempo, faz publicar um editorial que é um violento ataque ao
programa de governo de Haddad (aqui) que sequer se dá ao trabalho de analisar
de fato as propostas, mas recorre à tradicional chantagem para obrigar o PT a
abraçar o receituário neoliberal para a economia. Nesse processo sinuoso, a
Folha não considerou relevante examinar o programa de governo de Bolsonaro, um
papelucho de 81 páginas em boa medida composto de plágio de artigos de jornais
e sites (aqui) sem qualquer esforço de reflexão sobre o país.
Segundo o
jornalista Mario Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha de S. Paulo e do G1, em
entrevista ao programa Giro das 11 da TV247, este movimento da Folha explica-se
pela trajetória política e editorial do jornal, que ao fazer uma opção alinhada
com a direita do país e cada vez mais conservadoras do ponto de vista dos
costumes, perdeu sua tradicional base de leitores de centro e cento esquerda,
das camadas intelectuais urbanas e se restringiu cada vez mais a uma base de
classe média de direita e reacionária. “A Folha, usando uma imagem um
pouco forte, está como que aprisionada por essas criaturas que ela transformou
em seus leitores e que a ameaçam com cancelamento de assinaturas e protestos a
qualquer movimento de crítica em relação ao Bolsonaro”, observou Santos.
É um paradoxo,
segundo o ombudsman, porque estes veículos, institucionalmente, pode se colocar
na mesma posição que acabaram ocupando depois do golpe de 1964, se Bolsonaro
vencer as eleições. Apoiaram o golpe de Estado e se tornaram vítimas de uma
ferrenha censura do Estado autoritário, como Bolsonaro já deixou claro que
pretende fazer. Este não é um dilema para veículos e projetos políticos que
aderiram de corpo e alma ao bolsonarismo, como a Rede Record, da Igreja
Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, a Rede Bandeirantes, o jornal O
Estado de S.Paulo e a rádio Jovem Pan de São Paulo, por exemplo. Todos eles
disputam o “privilégio” de se tornarem porta-vozes do movimento
neofascista no país.
Enquanto os
veículos da mídia conservadora movem-se de acordo com interesses e cálculos de
seus proprietários, há alguns jornalistas, onde há um mínimo espaço de
manifestação, que começam a revisitar sua adesão à direita e, mais
recentemente, à extrema-direita, e revisitam sua posição inicial de simpatia em
relação a Bolsonaro. O primeiro a realizar este movimento foi Reinaldo Azevedo,
uma estrela do antipetismo e do pensamento de direita radical na imprensa e que
começou a perder espaço na medida em que foi se colocando criticamente em
relação aos ataques à democracia da Lava Jato e, agora, de Bolsonaro. Azevedo é
o criador da palavra “petralha” que se tornou num ponto de unidade do
antipetismo do país. Ele tem repetido que nunca recebeu uma ameaça de morte
enquanto criticava o PT, e que, agora, recebe ameaças diariamente dos
bolsonaristas.
Outra que tem
sido sistematicamente ameaçada é Miriam Leitão. A jornalista, que tem coluna no
jornal O Globo e na rádio CBN e é presença diárias nos programas da TV Globo e
GloboNews, foi uma das líderes do antipetismo no grupo da família Marinho e é
vista como uma porta-voz informal de seus patrões. Bastou começar a se
distanciar do discurso de ameaça à democracia de Bolsonaro e começou a sofrer
ataques em massa.
Outros
jornalistas ou comentaristas da imprensa conservadora historicamente
antipetistas e que agora confrontam Bolsonaro pelo risco que o neofascismo
representa são Elio Gaspari (Folha e O Globo), Marcelo Coelho (Folha) e Ricardo
Noblat (ex-O Globo e agora Veja).
Eles convivem,
nestes veículos, com alguns poucos jornalistas que nunca se deixaram contaminar
pelo antipetismo e antagonizaram-se com o bolsonarismo desde o primeiro
momento, como Janio de Freitas, Maurício Stycer e Nélson de Sá, na Folha de
S.Paulo, e Bernardo Mello Franco e Kennedy Alencar, nas empresas da família
Marinho.
Se Haddad
vencer, todos aqueles que inciaram um movimento de antagonismo com Bolsonaro
mas são antipetistas viscerais retornarão à sua posição de origem; os poucos
progressistas nos veículos conservadores, sobreviverão a duras penas. Se
Bolsonaro vencer, haverá um movimento de crescente oposição a ele, na medida em
que decisões de cunho autoritário forem de tornando políticas de governo.     

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