Samuca, o andarilho de Ondina, ganha um lar após mais de 30 anos
Em busca de sua
história, Obras Sociais Irmã Dulce receberam idoso em abrigo
história, Obras Sociais Irmã Dulce receberam idoso em abrigo

Em foto tirada
há 10 anos, Samuca caminha pelas ruas de Ondina, onde viveu por pelo menos três
décadas (Foto: Antonio Queiroz/Arquivo CORREIO)
há 10 anos, Samuca caminha pelas ruas de Ondina, onde viveu por pelo menos três
décadas (Foto: Antonio Queiroz/Arquivo CORREIO)
O ano era 2010.
Recém-chegada a Salvador, caloura no curso de Jornalismo da Universidade
Federal da Bahia (Ufba). Quase todos os dias, passava para um café da manhã na
delicatessen da Avenida Adhemar de Barros, e era lá que o encontrava. Sempre
com um paletó velho debaixo de um sol escaldante, o homem de idade um tanto
avançada caminhava sem destino pelas transversais de Ondina.
Recém-chegada a Salvador, caloura no curso de Jornalismo da Universidade
Federal da Bahia (Ufba). Quase todos os dias, passava para um café da manhã na
delicatessen da Avenida Adhemar de Barros, e era lá que o encontrava. Sempre
com um paletó velho debaixo de um sol escaldante, o homem de idade um tanto
avançada caminhava sem destino pelas transversais de Ondina.
Sempre pareceu
perdido em seu próprio mundo – nós é que éramos estranhos ali. Logo veio o
costume com sua presença – tanto costume que, por vezes, sequer reparei nele
nos quatro anos seguintes. Nunca soube seu nome. Nunca soube que mais do que
uma pessoa em situação de rua, aquele homem tinha se tornado em uma figura
icônica do bairro, onde permaneceu por pelo menos 30 anos.
perdido em seu próprio mundo – nós é que éramos estranhos ali. Logo veio o
costume com sua presença – tanto costume que, por vezes, sequer reparei nele
nos quatro anos seguintes. Nunca soube seu nome. Nunca soube que mais do que
uma pessoa em situação de rua, aquele homem tinha se tornado em uma figura
icônica do bairro, onde permaneceu por pelo menos 30 anos.
De volta ao
presente, veio a notícia de que aquele senhor de Ondina não estava mais por lá.
Descobri que seu nome – ou apelido – era conhecido por muitos moradores e
estudantes da universidade: Samuca. E, agora, ele tinha novo endereço: desde o
dia 3 de março do ano passado, Samuca é um dos 72 moradores do Centro
Geriátrico das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid).
presente, veio a notícia de que aquele senhor de Ondina não estava mais por lá.
Descobri que seu nome – ou apelido – era conhecido por muitos moradores e
estudantes da universidade: Samuca. E, agora, ele tinha novo endereço: desde o
dia 3 de março do ano passado, Samuca é um dos 72 moradores do Centro
Geriátrico das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid).
Ele chegou ao
abrigo através da própria superintendente da Osid e sobrinha de Irmã Dulce,
Maria Rita Lopes Pontes. Ela soube, através de uma cabeleireira, que Samuca
estava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) dos Barris. Estava doente, com um
quadro de infecção urinária e hérnia. Maria Rita o conhecera 27 anos antes,
quando se mudou do Rio de Janeiro para Salvador, para a Ondina. Em diferentes
momentos, disse a ele que poderia ajudá-lo, se quisesse.
abrigo através da própria superintendente da Osid e sobrinha de Irmã Dulce,
Maria Rita Lopes Pontes. Ela soube, através de uma cabeleireira, que Samuca
estava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) dos Barris. Estava doente, com um
quadro de infecção urinária e hérnia. Maria Rita o conhecera 27 anos antes,
quando se mudou do Rio de Janeiro para Salvador, para a Ondina. Em diferentes
momentos, disse a ele que poderia ajudá-lo, se quisesse.
Agora, Samuca
tinha recebido alta da UPA, mas não tinha para onde ir. De forma indireta,
Maria Rita sentiu que a hora tinha chegado. Justamente naquele período, um dos
leitos da Osid estava vago. E, assim, pouco depois, o leito 570 recebeu um
ocupante.
tinha recebido alta da UPA, mas não tinha para onde ir. De forma indireta,
Maria Rita sentiu que a hora tinha chegado. Justamente naquele período, um dos
leitos da Osid estava vago. E, assim, pouco depois, o leito 570 recebeu um
ocupante.
Com medo
Os primeiros
dias foram difíceis. Quando chegou à Osid, Samuca parecia ter medo de todos.
Não gostava de contato. Se alguém se aproximasse, ele se retraía.
dias foram difíceis. Quando chegou à Osid, Samuca parecia ter medo de todos.
Não gostava de contato. Se alguém se aproximasse, ele se retraía.
“Ele era como um
bichinho assustado. Tinha até um quadro de agressividade, embora nunca tenha
agredido ninguém fisicamente”, conta a assistente social Lane Cardoso.
bichinho assustado. Tinha até um quadro de agressividade, embora nunca tenha
agredido ninguém fisicamente”, conta a assistente social Lane Cardoso.
Muito
debilitado, também não conseguia realizar algumas atividades básicas. Precisava
que alguém o acompanhasse em tudo. Não conseguia tomar banho sem ajuda, nem se
alimentar sem o auxílio de um dos profissionais da Osid.
debilitado, também não conseguia realizar algumas atividades básicas. Precisava
que alguém o acompanhasse em tudo. Não conseguia tomar banho sem ajuda, nem se
alimentar sem o auxílio de um dos profissionais da Osid.
Samuca não
costuma falar. Ao longo de toda a sua história em Ondina, ninguém sabia se ele
não conseguia, ou se não queria. Agora, no centro geriátrico, a comunicação é
praticamente restrita a ‘sim’ ou ‘não’. Quando o encontramos, descansava no
quarto, mas, mesmo assim, aceitou um café. A equipe que o acompanha explicou:
ele nunca rejeita café.
costuma falar. Ao longo de toda a sua história em Ondina, ninguém sabia se ele
não conseguia, ou se não queria. Agora, no centro geriátrico, a comunicação é
praticamente restrita a ‘sim’ ou ‘não’. Quando o encontramos, descansava no
quarto, mas, mesmo assim, aceitou um café. A equipe que o acompanha explicou:
ele nunca rejeita café.
Em um dado
momento, quando foi perguntado sobre seu nome, Samuca deu a resposta que pode
ser a chave para desvendar o mistério de sua identidade e sua história. Samuca
revelou que se chamava Samuel Ramos. Algumas semanas antes, ele disse o mesmo
nome à assistente social.
momento, quando foi perguntado sobre seu nome, Samuca deu a resposta que pode
ser a chave para desvendar o mistério de sua identidade e sua história. Samuca
revelou que se chamava Samuel Ramos. Algumas semanas antes, ele disse o mesmo
nome à assistente social.
Fora isso, não
quis mais conversa. Em um dado momento, pareceu ignorar aqueles à sua volta.
Quando o café acabou, voltou a recostar na cama de onde nunca levantou. Fechou
os olhos e foi a deixa para que a equipe continuasse explicando: sempre que sai
do refeitório, ele volta para a cama. Não costuma ficar muito tempo fora. Mesmo
assim, eles comemoram.
quis mais conversa. Em um dado momento, pareceu ignorar aqueles à sua volta.
Quando o café acabou, voltou a recostar na cama de onde nunca levantou. Fechou
os olhos e foi a deixa para que a equipe continuasse explicando: sempre que sai
do refeitório, ele volta para a cama. Não costuma ficar muito tempo fora. Mesmo
assim, eles comemoram.
“Hoje, ele sai
do leito sozinho, vai ao banheiro, vai ao refeitório na hora”, conta a
enfermeira Normaci Teodora.
do leito sozinho, vai ao banheiro, vai ao refeitório na hora”, conta a
enfermeira Normaci Teodora.
Samuca não é
assim só com os profissionais. Vivendo em um quarto com oito leitos, também não
costuma interagir com os outros sete moradores. Não incomoda ninguém, mas não
tem amigos. O dono do leito ao lado, o 569, respondeu que os dois não têm nada
em comum.
assim só com os profissionais. Vivendo em um quarto com oito leitos, também não
costuma interagir com os outros sete moradores. Não incomoda ninguém, mas não
tem amigos. O dono do leito ao lado, o 569, respondeu que os dois não têm nada
em comum.
Evolução rápida
Mesmo assim,
cada dia é considerado uma vitória pela Osid. Para a assistente social Lane
Cardoso, a evolução de Samuca – em pouco mais de um ano e um mês –, é
surpreendente. Muito mais rápido do que esperavam para alguém que viveu nas
ruas por pelo menos três décadas. “Tivemos um paciente que demorou mais de 15
anos para socializar”, cita.
cada dia é considerado uma vitória pela Osid. Para a assistente social Lane
Cardoso, a evolução de Samuca – em pouco mais de um ano e um mês –, é
surpreendente. Muito mais rápido do que esperavam para alguém que viveu nas
ruas por pelo menos três décadas. “Tivemos um paciente que demorou mais de 15
anos para socializar”, cita.
No mês passado,
Samuca participou do evento mensal promovido pelo centro. Com outros moradores,
foi jantar em uma pizzaria no Dique do Tororó – de forma voluntária, já que os
pacientes da Morada são convidados, mas não têm obrigação de participar. “A gente
trabalha para ressocializar, reabilitar e devolver ao indivíduo a sua
cidadania”, afirma a coordenadora do centro, Terezinha Pacheco. As atividades
vão desde banho de sol a artesanato.
Samuca participou do evento mensal promovido pelo centro. Com outros moradores,
foi jantar em uma pizzaria no Dique do Tororó – de forma voluntária, já que os
pacientes da Morada são convidados, mas não têm obrigação de participar. “A gente
trabalha para ressocializar, reabilitar e devolver ao indivíduo a sua
cidadania”, afirma a coordenadora do centro, Terezinha Pacheco. As atividades
vão desde banho de sol a artesanato.

Samuca, no
centro, foi à pizzaria com uma camisa do Bahia (Foto: Osid/Divulgação)
centro, foi à pizzaria com uma camisa do Bahia (Foto: Osid/Divulgação)
No dia da
pizzaria, usou uma camisa do Esporte Clube Bahia. A camisa, segundo Maria Rita,
foi um presente do ex-presidente do time, Marcelo Sant’Ana.
pizzaria, usou uma camisa do Esporte Clube Bahia. A camisa, segundo Maria Rita,
foi um presente do ex-presidente do time, Marcelo Sant’Ana.
“Ele (Samuca)
fala baixo, mas fala. Na rua, ele não falava, mas, aqui, perguntamos se ele era
Bahia ou Vitória e ele respondeu. E lá, muita gente sabia que ele torcia para o
Bahia”, conta Maria Rita.
fala baixo, mas fala. Na rua, ele não falava, mas, aqui, perguntamos se ele era
Bahia ou Vitória e ele respondeu. E lá, muita gente sabia que ele torcia para o
Bahia”, conta Maria Rita.
Em 27 anos, ela
própria só conseguiu conversar com Samuca há três, em uma situação específica.
Estava na Orla de Ondina quando o encontrou. Procurava café. Maria Rita, então,
foi a uma lanchonete e voltou com um café e um misto quente. Ele aceitou o
café, recusou o misto.
própria só conseguiu conversar com Samuca há três, em uma situação específica.
Estava na Orla de Ondina quando o encontrou. Procurava café. Maria Rita, então,
foi a uma lanchonete e voltou com um café e um misto quente. Ele aceitou o
café, recusou o misto.
“Perguntamos se
ele queria voltar para Ondina, ele disse que não. Parece que se sente seguro
aqui”, comentou.
ele queria voltar para Ondina, ele disse que não. Parece que se sente seguro
aqui”, comentou.
A vida nova
No centro, ele
mantém uma rotina. “Senta sempre no mesmo lugar no refeitório: de costas para a
televisão”, conta a fisioterapeuta Ana Luiza Azevedo. Duas vezes por semana,
Samuca passa por sessões de fisioterapia para ter mais estabilidade –
especialmente ao andar.
mantém uma rotina. “Senta sempre no mesmo lugar no refeitório: de costas para a
televisão”, conta a fisioterapeuta Ana Luiza Azevedo. Duas vezes por semana,
Samuca passa por sessões de fisioterapia para ter mais estabilidade –
especialmente ao andar.
Ana Luiza ainda
tem um objetivo: fazer com que ele participe de um grupo de musicoterapia. Até
agora, ele não conseguiu passar mais do que cinco minutos na reunião.
tem um objetivo: fazer com que ele participe de um grupo de musicoterapia. Até
agora, ele não conseguiu passar mais do que cinco minutos na reunião.
A verdade é que
Samuca tem evoluído de forma individual, mas ainda tem dificuldades para se
relacionar em grupos. A coordenadora Terezinha diz que eles esperam que esse
aspecto também mude. “Ele é só. A gente quer tirar ele dessa solidão, desse
isolamento”. No entanto, ela sabe que o trabalho é árduo.
Samuca tem evoluído de forma individual, mas ainda tem dificuldades para se
relacionar em grupos. A coordenadora Terezinha diz que eles esperam que esse
aspecto também mude. “Ele é só. A gente quer tirar ele dessa solidão, desse
isolamento”. No entanto, ela sabe que o trabalho é árduo.
No fundo, todas
ali sabem que a recuperação pode acontecer a passos lentos. Apesar disso,
vislumbram um futuro diferente para o morador ilustre. “Vamos fazer os
documentos de Samuca, para que ele possa se tornar um verdadeiro cidadão e se
reconectar com o mundo”, diz a assistente social Lane Cardoso.
ali sabem que a recuperação pode acontecer a passos lentos. Apesar disso,
vislumbram um futuro diferente para o morador ilustre. “Vamos fazer os
documentos de Samuca, para que ele possa se tornar um verdadeiro cidadão e se
reconectar com o mundo”, diz a assistente social Lane Cardoso.

Samuca ao lado
de Maria Rita e de funcionário da Osid: acolhimento Foto: Acervo
Pessoal
de Maria Rita e de funcionário da Osid: acolhimento Foto: Acervo
Pessoal
A Osid pediu
ajuda ao Ministério Público do Estado (MP-BA) para localizar eventuais
documentos de Samuca, já que a própria entidade não conseguiu encontrar nada
sobre seu passado. Se, de fato, nenhum documento ou histórico for conhecido,
tudo será feito do zero.
ajuda ao Ministério Público do Estado (MP-BA) para localizar eventuais
documentos de Samuca, já que a própria entidade não conseguiu encontrar nada
sobre seu passado. Se, de fato, nenhum documento ou histórico for conhecido,
tudo será feito do zero.
Samuca, que
ninguém sabe se realmente nasceu em Salvador como diz ou se tem os 70 ou 80
anos que aparenta, vai nascer de novo. Vai nascer como o Samuel Ramos que
talvez tenha sido um dia, mas vai continuar sendo o personagem principal das
memórias de milhares de estudantes, moradores ou simplesmente pedestres que
passaram por Ondina nos últimos 30 anos.
ninguém sabe se realmente nasceu em Salvador como diz ou se tem os 70 ou 80
anos que aparenta, vai nascer de novo. Vai nascer como o Samuel Ramos que
talvez tenha sido um dia, mas vai continuar sendo o personagem principal das
memórias de milhares de estudantes, moradores ou simplesmente pedestres que
passaram por Ondina nos últimos 30 anos.
Há quem diga que
Samuca era um professor de Matemática que, de tanto corrigir prova,
enlouqueceu. Outros contam que, com certeza, ele fora um combatente na guerra
do Vietnã que teve estresse pós-traumático, e outras versões que garantem que
Samuca era cobrador de ônibus, mas teve um caso com a mulher do chefe. O
patrão, com a dor dos traídos, teria sido o responsável pela ida dele para as
ruas, depois de espancá-lo.
Samuca era um professor de Matemática que, de tanto corrigir prova,
enlouqueceu. Outros contam que, com certeza, ele fora um combatente na guerra
do Vietnã que teve estresse pós-traumático, e outras versões que garantem que
Samuca era cobrador de ônibus, mas teve um caso com a mulher do chefe. O
patrão, com a dor dos traídos, teria sido o responsável pela ida dele para as
ruas, depois de espancá-lo.
Como Maria Rita,
da Osid, ou como a repórter, cada um tem uma história com ele
da Osid, ou como a repórter, cada um tem uma história com ele



